O mundo se constrói pelo caminho! Fórum Social Mundial e os Movimentos de 2011

O Fórum Social Mundial (FSM) é um processo histórico, dinâmico e dialógico. E como tal, se transforma toda vez que vem à tona, quando é foco de reflexão, sempre que duas ou mais pessoas colocam-no em pauta. Mesmo entre os que ainda não participaram de edição alguma, mas que de alguma maneira tiveram contato com sua proposta, o processo vai sendo desconstruído, re-interpretado e novamente re-elaborado. Por isso o FSM é um espaço político onde os meios interessam tanto quanto os fins e é primordialmente um processo pedagógico.

A máxima de Gandhi “seja a mudança que deseja ver no mundo” nunca foi tão largamente incorporada quanto nas articulações dos novos movimentos sociais que constroem a experiência do FSM de maneira horizontalizada, autogestionada, sem hierarquias ou postos de comando. Pode parecer simples, mas essa disposição à processos democráticos radicais é desafiada a cada novo encontro, em cada reunião, a todo momento.

Vivemos em um mundo competitivo, individualista, mesquinho e cruel. A mais pura e boa intenção não resolve a (de)formação que cada um de nós sofreu durante o processo de socialização a que somos submetidos, cuja função é a conformação ao sistema via assimilação da ideologia hegemônica desde a mais tenra infância. Assim, os que constroem continuamente o FSM precisam ser indivíduos assumidamente em transição, em meio a diferentes processos de cura, cada qual à sua maneira, cada um em um estágio. Esses indivíduos em transito são os que sinceramente lutam por desencadear e facilitar encontros onde novas estruturas sociais possam ser geradas e estimuladas, onde pessoas cada vez mais autônomas possam surgir, onde processos de emancipação sejam criados, incentivados e fortalecidos.

Tal caráter crítico e transitório é a essência da transformação da vida, em todas as escalas e manifestações que experimentamos em nossa individualidade, que compartilhamos em nossa comunidade e esperamos ser dissipada mundo afora, como uma outra globalização possível.

Quando em 2011 irrompe no mundo todo movimentos de protesto que ocuparam ruas e praças em uma contagiante onda que revigorou o cenário e as perspectivas da luta social internacional, muitos dos que participam do processo FSM foram tomados por grande entusiasmo e esperança de renovação. Certificamo-nos que o caminho que seguíamos era de fato uma direção viável, ao mesmo tempo em que entendemos que ainda havia muito a ser aprendido e construído. Deslumbramo-nos com a espontaneidade de movimentos que praticavam organicamente aquilo que propúnhamos com custosa inovação de nossas práticas.

No bojo desse espetacular “ano em que sonhamos perigosamente” surge a ideia do “Somos 99%”. Uma frase de impacto que logo viria a ser identificada com o espírito que incendiava as manifestações em partes tão diferentes do globo. Da Primavera Árabe à Europa Ocidental, da Espanha à China, do Chile à Grécia, os protestos anticapitalistas se reconheciam na palavra de ordem que apareceu em Nova Iorque, estampada em inúmeros cartazes do Occupy Wall St, incansavelmente bradada entre as veias abertas no coração do país central da crise mundial.

Então fomos brindados com a eloqüência de Chico Whitaker, criador do FSM, que fez uma fecunda observação. Apontou que se de fato 99% da população mundial é oprimida por menos de 1% – constituído pelos que detém os meios de produção e controle hegemônico -, os que estão se organizando para combatê-los, somando os que participam do processo FSM com os insurgentes de 2011, também não chegariam à outros 1% da população mundial. A frase reinterpretada seria algo como “somos apenas 1% emancipados e mobilizados e precisamos dos outros 98% para que um outro mundo seja de fato possível”. Se os Fóruns Locais já sinalizavam nessa perspectiva buscando uma aproximação cada vez maior com a população, os movimentos de 2011, com sua ampla, espontânea e fugaz mobilização massiva de pessoas comuns que repovoaram os espaços públicos em protestos e experiências horizontais por democracias diretas, constituem processos que apontam na mesma direção. E a direção é a ampliação da conscientização, da emancipação individual contra toda forma de opressão, do alinhamento das lutas e da materialização em ações da indignação das massas.

O FSM de Tunis foi um fértil terreno onde pudemos vivenciar toda a reflexão atual sobre os movimentos sociais da contemporaneidade desencadeada pelo processo FSM de maneira muito intensa e profunda. Primeiro, porque teve ampla participação de movimentos e organizações do mundo todo que desenvolveram mais de mil atividades autogestionadas sobre variados assuntos. Segundo, porque apesar do caráter efetivamente internacional, teve enorme impacto local, com ampla participação dos tunesinos e de seus vizinhos revolucionários do norte da África. Terceiro, porque os debates sobre o futuro do FSM foram intensificados. Os diálogos, trocas e interações entre os que vinham construindo o processo Fórum e os novos protagonistas dos movimentos sociais contemporâneos geraram importantes articulações cujos efeitos serão sentidos na continuidade do processo, nas novas propostas de atuação da sociedade civil no mundo atual e nas articulações de suas lutas.

E é neste contexto que se insere o projeto Cartografias do Futuro. Animados pela orientação prática que caminha do global ao local, o projeto propõe estimular e fortalecer a dinâmica das redes internacionais que se articulam em torno de temas específicos da luta social, ao mesmo tempo em que incentiva o reconhecimento das bases de cada luta em seu próprio território, a partir do desenho de mapas geográficos. A grande aposta está no processo participativo que desencadeará e que de fato já vem sendo empregado desde seu início. A valorização do processo dá espaço para a construção colaborativa de conhecimentos e a criação de práticas coletivas. As organizações e movimentos sociais são estimulados a se apropriarem do projeto desenvolvendo livremente a metodologia de sua participação. Os encontros do FSM continuarão servindo para alinhar os projetos, trocar experiências e compartilhar resultados. A efetividade prática de se reconhecer em um determinado eixo temático com lutas que comungam dos mesmos objetivos, muitas vezes identificando estratégias semelhantes e compartilhando recursos comuns servirá como um incentivo prático aos que mobilizam suas lutas ainda de maneira solitária enfrentando escassez de recursos humanos e materiais. Esperamos também que tal prática facilite a simplificação da linguagem, o convite à participação e a composição de inúmeros atrativos muito mais eficientes por estarem mais próximos das opressões e lutas da população em geral, contribuindo para o alargamento das fileiras dos mobilizados.

O FSM da Tunísia foi mais uma etapa de um longo processo. As principais lições que já sou capaz de assimilar em tão pouco tempo são as que aprofundam esse caminho de reflexão das lutas sociais apontando para a renovação crítica da própria estrutura do FSM e das estratégias de atuação dos movimentos. Voltamos com um respaldo muito positivo com relação ao projeto Cartografias do Futuro. Tivemos a chance de encontrar pessoalmente muitos ativistas com quem até então só havíamos trabalhado à distância e assim pudemos compartilhar ainda mais as diferentes expectativas e propostas para o seu desenvolvimento.

Ficamos extremamente satisfeitos e empolgados com a ampla participação que nossas atividades despertaram, com a rápida apropriação e autonomia com que os participantes foram ressignificando o projeto, conforme havíamos proposto. Encontramos respaldo e ficamos ainda mais animados com a presença entre as demais atividades do FSM dos temas e abordagem centrais ao Cartografias, como a territorialização das lutas, algumas propostas de mapeamento bastante similares e as articulações das redes temáticas, que apesar de já serem comuns nesses encontros, foram intensificadas e destacadas.

Além disso, pude constatar também alguns pontos que desenvolvo em meu projeto de pesquisa de mestrado, principalmente o que se refere às questões relacionadas ao meio ambiente como sendo apropriadas pelos movimentos sociais e funcionando como tema transversal à suas lutas.  Mais um passo foi dado à esta interpretação reconhecendo que outros temas tem trilhado o mesmo caminho, entrando nas pautas dos movimentos em geral, de maneira transversal, como a luta feminista, a questão da diversidade religiosa e cultural, além da restituição da questão econômica à sua importância central às lutas sociais, com o diferencial de agora figurar lado a lado com as questões identitárias.

O mundo que conhecemos é uma elaboração cultural, construída historicamente por diversas forças sociais. Ao compreender essa característica maleável da realidade, podemos questionar tudo o que existe e planejar o que quisermos em seu lugar. É claro que não é tão simples, já que os que se beneficiam do sistema opressor vigente estão muito bem equipados com uma quantidade imensa de aparatos de controle que manipulam desde a institucionalização do uso da violência até mecanismos requintadíssimos de cooptação e controle.  Assim, não há dúvidas de que para transformar esta realidade precisamos nos organizar e agir com o máximo de sintonia possível. A grande diferença histórica de nossa geração, é que contamos com o espaço criado pelo Fórum Social Mundial para articular nossas lutas. O FSM prepara a sociedade para o desfecho de um processo que começou lá atrás com as revoluções modernas, que ao mesmo tempo em que estabeleceu o capitalismo como sistema dominante e opressor, também proporcionou as bases para que os oprimidos começassem a organizar a resistência à exploração que eram submetidos. Da esquerda clássica que visava à conquista do poder político, surgem na década de 1960 os então conhecidos como novos movimentos sociais, que passam a travar suas lutas em todos os âmbitos da vida. Em toda parte do sistema social em que um atrito era reconhecido, logo surgia um movimento para contestá-lo. Do feminismo à luta ambiental. Da questão religiosa à luta pela diversidade étnica, racial e sexual. Essas lutas, que começaram como um agravamento da fragmentação da esquerda clássica, foram se aprofundando, ganhando cada vez mais consistência até chegarem ao momento atual em que se torna evidente e possível seu re-alinhamento, mas agora garantindo sua diversidade intrínseca e sua pluralidade programática. Quando afirmamos que o processo é tão importante quanto o resultado, que a pedagogia da prática é até mais importante que a própria prática, apontamos para um caminho em que a mudança do mundo não só é possível como já está acontecendo. No caminho da transformação, o novo mundo se constrói.

Para saber mais visite: www.forumsocialsp.org.br

Bruno Franques é cientista social, designer, educador e facilitador do Fórum Social SP.

Sobre Bruno Franques

Bruno Franques é sociólogo, bacharel em Ciências Sociais pela USP. Mestrando em Educação, Comunidade e Movimentos Sociais na UFSCar Sorocaba. Cursou também Comunicação Social e Educomunicação. Colaborador do Instituto Physis (institutophysis.wordpress.com), é membro da Rede de Facilitadores de Fóruns Locais (forunslocais.net); do Grupo de Facilitadores do Fórum dos Povos (forumdospovos.net); do Fórum Social São Paulo (forumsocialsp.org.br); do Fórum Social Sorocaba (forumsocialsorocaba.org.br); do Coletivo Coolmeia SP (coolmeia.org); do Grupo de Articulação Regional da Feira de Orgânicos de Sorocaba (garfos.org.br), do Núcleo de Educação Infantil Jardim do Livre Sonhar (livresonhar.org.br), do programa de televisão Diálogos Comunitários (dcufscar.wordpress.com), da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e pela Vida (contraosagrotoxicos.org) e da Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares (brasilcontrausinanuclear.com.br). Pesquisador vinculado ao Grupo de Pesquisa em Educação, Comunidade e Movimentos Sociais, da UFSCar Sorocaba (comov.wordpress.com) e ao Grupo de Pesquisa em Comunicação e Movimentos Sociais (GPCOMS). Articulador regional da Rede SANS – Rede de Defesa e Promoção da Alimentação Saudável, Adequada e Solidária (redesans.com.br).
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